Diversidade no movimento espírita

Diversidade no movimento espírita: o desafio de amar o diferente sem abdicar de si mesmo[1]

 Hidemberg Alves da Frota

No cotidiano do movimento espírita a preocupação com a coerência doutrinária inspira recorrentes debates, polarizados entre conservadores e renovadores.

Os conservadores defendem o purismo doutrinário, almejando prevenir que seja descaracterizada a doutrina espírita, motivo por que preferem circunscrever o estudo das questões espirituais nas casas espíritas ao conteúdo das Obras Básicas e dos livros psicografados por médiuns chancelados pela Federação Espírita Brasileira, elenco encabeçado pelas obras ditadas a Francisco Cândido Xavier, a Divaldo Pereira Franco e à Yvonne do Amaral Pereira.

De outro lado, os renovadores, segmento em relação aos quais se destacam as psicografias de Robson Pinheiro e de Wanderley Oliveira, além do conjunto de obras ditadas a diversos médiuns pelo espírito Ramatis, capitaneado pelas clássicas obras psicografadas por Hercílio Maes, são adeptos de uma mentalidade universalista (ilustrada pela Revista Cristã de Espiritismo RCE, capitaneada por Victor Rebelo), em prol da ampliação do conhecimento espírita sobre temáticas conscienciais para além das fronteiras do que já é parte do cânone e da zona de conforto da comunidade espírita. Preconizam o diálogo da doutrina espírita com expressões da espiritualidade de outras matrizes, a exemplo da africana, indígena, esotérica e oriental, e com pesquisas levadas a efeito por espíritas e não espíritas, nos campos da projeção astral, da Apometria, da Conscienciologia, da terapia de vivências passadas, da Ufologia e da Parapsicologia.

A necessidade de que conservadores e renovadores convivam de modo democrático e fraterno no ambiente espírita, como espaço de indispensável diversidade, no modo como se pensa, como se interpreta e como se vivencia o espiritismo, é ressaltada em “O lado oculto da transição planetária”, obra ditada pelo espírito Maria Modesto Cravo ao médium Wanderley Oliveira, publicada em 2014 pela Editora Difaux, de Belo Horizonte (MG).

No Capítulo 7 de “O lado oculto da transição planetária”, Maria Modesto Cravo frisa que conservadores e renovadores têm papéis relevantes a desempenhar na seara espírita e adverte que ambas as vertentes da comunidade espírita devem se nortear pelo princípio da fraternidade e, por consequência, precisam considerar o mérito de cada irmão e de cada irmã atuante no movimento: “Conservadores e renovadores, cada qual com seu papel, cumprem funções importantíssimas em nossa comunidade, mas quando um ou outro adota uma atitude de desrespeito aos esforços alheios, ambos perdem a razão e escolhem a contramão da postura que deveria orientar a todos nós que amamos o Espiritismo: a fraternidade.”

A benfeitora espiritual realça que todos, espíritas conservadores e renovadores, são úteis à causa espírita, desde que norteados pelo amor e pela bondade com o próximo.

A pluralidade

Esclarece também Modesto Cravo que o risco de se desestruturar a comunidade espírita não decorre da “diferença na forma de pensar, fora dos padrões”, e sim da “nociva incapacidade de nos amarmos nas nossas diferenças”. 

“Ter pontos de vista diferentes é muito saudável”, explica a pioneira do movimento espírita de Uberaba (MG), “para qualquer doutrina que deseja provar sua consistência em relação ao progresso”.

No entanto, deve-se abdicar da pretensão de “ter a palavra final sobre os conceitos espíritas ou modelos de trabalho” e, ao mesmo tempo, é imperioso “respeitar quem pensa e age diferente”.

Embora cada um de nós busque, de maneira honesta, ser coerente com a doutrina que abraçamos e argumentemos, com embasamento doutrinário e boa-fé, o posicionamento que exprime nossa convicção, nem sempre é fácil lidar com a pluralidade de interpretações acerca de temas fundamentais do espiritismo e de fenômenos de ordem extrafísica e cósmica, haja vista que tais questões, por vezes, despertam comportamentos passionais e ferem susceptibilidades, na medida em que afloram tendências plurisseculares à defesa intransigente de valores e crenças considerados sagrados.

O dever de prestar o esclarecimento consciencial deve ser temperado com compaixão e empatia pelo público a que se destina, tendo em mente o momento evolutivo de cada um e a cautela com as forças de oposição ao progresso espiritual da humanidade terrestre, que, cientes de nossas fragilidades decorrentes do orgulho, do egoísmo e de outras vulnerabilidades psicológicas (tais quais, o medo e a insegurança), incentivam o acirramento de ânimos, a fim de enfraquecer ou extinguir grupos de estudos espirituais e de assistência caritativa, sabotar iniciativas louváveis de espiritualização e dificultar o exercício da fraternidade, da serenidade e da moderação.

Ante o receio de que o nosso silêncio prejudique a formação de nossos confrades, em virtude de eventual erro de interpretação, temos, em certas situações, o ímpeto de assinalar o equívoco interpretativo do outro.

Contudo, o que, para uma pessoa pode soar equivocado, na opinião de outra pode ser coerente com a doutrina espírita. É imprescindível o acolhimento sincero do irmão ou da irmã que discorda, para que não seja (nem se sinta) agredido em seus valores existenciais e para que seja reforçado a continuar compartilhando suas vivências com o grupo ou instituição que abraçou e a manter o empenho em consolidar em si novos marcos vibratórios, em sintonia com a ética cósmica, centrada no princípio do amor universal.

Por maior que seja o nosso esforço comum de estudar de forma sistematizada e cuidadosa a literatura espírita, notadamente a Codificação Kardequiana, a interpretação do seu conteúdo varia conforme a individualidade de cada um, refletindo aspectos de nossa personalidade, a qual, por sua vez, espelha numerosas variáveis, tais quais as heranças genética e paragenética (bagagem existencial multimilenar do espírito), os valores, o jeito de ser e a visão de mundo de cada pessoa, o ambiente em que se desenvolveu nesta encarnação e a sua formação cultural.

A diversidade, bem-vinda e necessária ao movimento espírita, serve de subsídio ao nosso processo de reforma íntima, de autoenfrentamento e de autoquestionamento, porque, muitas vezes, o que nos traz irritação ou indignação quanto à conduta de outrem diz respeito a traços sombrios de nossa personalidade que ainda não conseguimos transmutar em luzes, isto é, relaciona-se ao componente denso de nossa personalidade que ainda não diluímos por meio de “atitudes compatíveis com as conquistas da inteligência e do sentimento”, recorda Joanna de Ângelis, pela mediunidade de Divaldo Franco, no capítulo intitulado “Propriedade”, na obra “Jesus e o Evangelho, à luz da psicologia profunda”, originalmente publicada em 2000, pela Livraria Espírita Alvorada Editora (LEAL), de Salvador (BA).

Respeito sincero

Para que a comunidade espírita contemple a sua vocação para a contínua expansão dos horizontes conscienciais da humanidade (ênfase dos renovadores) sem perder a integridade doutrinária e a fidelidade às matrizes teóricas da doutrina dos espíritos (tônica dos conservadores), necessita aprender, mediante erros e acertos, a trilhar o caminho do meio, o que implica exercitar a conduta amorosa da qual resulte o acolhimento sincero tanto de conservadores quanto de renovadores, sem posturas de exclusivismo nem de censura, mas de assertividade nas ponderações e de apreço genuíno pela (e não apenas tolerância resignada da) diversidade.

Ambas as vertentes da comunidade espírita têm relevância não apenas no amadurecimento psicológico e moral dos espíritos encarnados e desencarnados que se propuseram a contribuir com a causa espírita neste delicado momento da transição planetária de mundo de provas e expiações para mundo de regeneração (marcado pelo crescimento das mais distintas manifestações de intolerância, inclusive religiosa), como também na vivência do espiritismo de forma plena, conjugando as suas tríplices dimensões de religião, filosofia e ciência, ao se conciliar o fomento à prática da caridade desinteressada e da assimilação de ensinamentos morais alicerçados na ética cósmica com a pesquisa inovadora de controvérsias relativas ao panorama extrafísico e cósmico em que se insere a humanidade terrestre.

A “nossa única e verdadeira baliza” não é a bênção de instituições, grupos, dirigentes e líderes, afirma o espírito Maria Modesto Cravo, mas o “respeito e o amor que nutrimos uns pelos outros, inspirados nos ensinos de Jesus e nas bases morais do Espiritismo”.

[1] Versão original deste artigo publicada na Revista Cristã de Espiritismo, São Paulo, v. 16, n.º 142, p. 40-42, set. 2015. Continuar lendo

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A reforma íntima e os novos tempos

A reforma íntima e os novos tempos[1]

Hidemberg Alves da Frota

À vista do momento aflitivo por que passa a humanidade, nós que abraçamos uma visão de mundo a matizar vivências e conhecimentos hauridos da doutrina espírita e do humanismo, assim como de filosofias existenciais e espirituais congêneres, sentimos a necessidade íntima de que tenhamos o bom ânimo, a força de vontade e a gratidão a Deus que nos permitam, a cada dia, ao acordarmos para o mundo dos encarnados, renovar, perante as nossas próprias consciências, o nosso compromisso de dignificar a nós mesmos, dignificando a vida em sociedade e honrando nosso mandamento reencarnatório, mantendo-nos em coerência com os valores espirituais e humanos que abraçamos e com os ideais e projeto existencial que acalentamos, e, em paralelo, permanecendo abertos aos desafios evolutivos, que consistem em oportunidades de aprendizado e perspectivas de renovação que o cotidiano terreno nos franqueia dia a dia.

Esses desafios evolutivos (ora manifestados de forma sutil, ora exteriorizados com nítido caráter de provação ou expiação) se apresentam, muitas vezes, de maneira inesperada, em meio ao cansaço físico e mental, devido ao acúmulo de tarefas, atividades e preocupações, de âmbito profissional, educacional, familiar e financeiro, em um horizonte de tempo corrido, de poluição urbana, de conflitos sociais à flor da pele e de trânsito caótico, nessa faina diária em que a perseverança, a disciplina e o amor são os ingredientes essenciais para que possamos cumprir, de coração, e não apenas por obrigação, nossos deveres perante a Ética cósmica e a nossa chama crística ou essência divina (Eu superior) de edificar a própria reforma íntima e de coadjuvar (sobretudo por meio do exemplo da própria conduta) o melhoramento de todos, em especial daqueles que se encontram na seara da nossa convivência diária e daqueles com quem temos os compromissos espirituais prioritários neste momento evolutivo, geralmente reunidos no mesmo círculo familiar ou agrupados na família estendida dos amigos e dos companheiros de labuta.

Velhos problemas

Nestas primeiras décadas do século XXI, apesar da proximidade da Era de Aquário (e em razão das mudanças que essa aproximação acarreta, trazendo a lume, sob a luz do meio-dia, os problemas mal resolvidos da humanidade), continuamos a vivenciar, mais uma vez em nosso ciclo reencarnatório terrestre, o dilema de voltar os olhos e o coração para nossos sentimentos, pensamentos, emoções, valores, tendências comportamentais e visão de mundo, de auscultar a nós mesmos, a despeito dos apelos do mundo circundante nos servirem de pretexto para o esquecimento de nós mesmos, impelidos pela força centrífuga que nos leva à fuga do autoenfrentamento, escapismo que não é exclusivo do contexto contemporâneo, mas adquire, na conjuntura atual, o reforço dos meios de comunicação em massa (que propagam o ilusório modus vivendi difundido pela indústria do entretenimento), da precarização das relações de trabalho (mais incerteza quanto à execução do projeto de vida e à sobrevivência, e, por conseguinte, menos tempo, interesse e energia dedicados à espiritualização e ao autodescobrimento) e da ampla disseminação das drogas (lícitas e ilícitas) e dos mecanismos de fugas da realidade tão bem elucidados pela benfeitora espiritual Joanna de Ângelis, neste período histórico em que quase toda a humanidade encarnada está inserida em uma Aldeia Global que, em passos cruzados, nos une a uma grande praça mundial, ao mesmo tempo que desloca nossa atenção do autoconhecimento, desvia o foco da reforma íntima, ofuscada pelo bombardeio dos sentidos, diante de tantos estímulos sensoriais de uma sociedade tão marcada pela ênfase no consumo, no entretenimento, no prazer e na acumulação de riquezas, prestígio, poder e ostentação, em um torvelinho de hiperatividade, incensado pelo excesso de atividades e pela interconectividade mediada por múltiplos aparelhos eletrônicos e redes sociais.

Mudanças gradativas

 Enquanto vamos dançando ao ritmo dos modismos sociais da nossa época (ainda que, porventura, tenhamos a vã pretensão de rejeitá-los) e percorrendo o itinerário cotidiano (com apatia ou desvelo), as mudanças da grande transição planetária, como a ela se refere Divaldo Pereira Franco, se operam nos bastidores das luzes e das sombras e se fazem sentir, aos poucos, na crosta terrestre, mesmo que a presença de novos ventos nesta camada epitelial do Planeta seja obscurecida pela nuvem de dores, pelos ódios sectários de diversas tonalidades (do fanatismo por um time de futebol ao extremismo étnico, religioso e xenófobo), pelo terror (psicológico e físico) e pelas diversas expressões de individualismo, em um estado de catatonia social em que parece envolvida a esfera dos encarnados, fervilhando, tal qual a borda de um lago em que borbulham as fagulhas de um vulcão encoberto pela escuridão do oceano.

Nesse cenário de transição (encoberto pelas rotinas repetitivas que dão a impressão de mera continuidade de um dia após o outro), a sociedade intrafísica (expressão colhida da Conscienciologia, como sinônima da sociedade, na linguagem espírita e espiritualista, do plano dos encarnados), condiciona-se aos estranhos fenômenos da atualidade (ilustrado pelo enclausuramento das residências, protegidas por grades, cerca elétrica, câmeras e alarme), como se as mazelas humanas se resumissem a uma má fase da economia mundial e às malfeitorias de políticos corruptos e de outros delinquentes contumazes, e não houvesse, como fundo de pano global, uma estrutura de poder e de dominação mais complexa, construída e desenvolvida ao longo de milênios, nas searas mais densas da extrafisicalidade, cujas raízes remontam às organizações e comunidades nascidas dos exílios planetários, conforme esclarecem, entre outras manifestações mediúnicas contemporâneas, as recentes psicografias de Robson Pinheiro (a exemplo das coleções “O Reino das Sombras” e “Os Filhos da Luz”, obras ditadas pelo espírito de Ângelo Inácio) e por Wanderley Oliveira (“Os Dragões”, obra ditada pelo espírito de Maria Modesto Cravo), todos na esteira do pioneiro livro “O Abismo”, de R. A. Ranieri (orientado pelo espírito de André Luiz), os quais trouxeram novas perspectivas não apenas quanto à temática bíblica das potestades e principados das trevas, como também sobre a questão “dos anjos decaídos” a que se refere a Codificação Kardequiana, quando o Pentateuco espírita examina o mito bíblico de Adão e Eva, com base na premissa da evolução contínua do ser e nos ciclos evolutivos em vários mundos e nas transmigrações planetárias.

Embora inquestionável a influência do atual momento evolutivo planetário sobre o momento evolutivo de cada um de nós, é preciso ter em mira que, independente da época e do lugar em que estejamos reencarnados, permanece o dever do espírito imortal, em relação a si mesmo, de abraçar a reencarnação como oportunidade singular para promover a sua reforma íntima, para aflorar a sua afetividade voltada à humanidade em geral, para além de grupos, classes, etnias e corporações (o chamado amor universal), e para enfrentar as provações e as missões com as quais se depara com coragem e fidelidade às leis éticas cósmicas, sem usar os subterfúgios em voga, para delas se evadir.

 Assuma seus desafios

Em palavras mais sucintas, apesar das dificuldades dos dias em curso, não podemos negligenciar nosso projeto reencarnatório nem os desafios a ele inerentes, já que a dificuldade, além de ser fator evolutivo indispensável, é característica sempre muito presente no ciclo reencarnatório terrestres e de mundos outros de provas e expiações, o que não impediu que houvesse exemplos magníficos de reforma íntima e autossuperação, como os de Paulo de Tarso, de Santo Agostinho e de Nelson Mandela, além das iluminadas reencarnações de Francisco de Assis, de Francisco Cândido Xavier e de Mohandas Karamchand “Mahatma” (Grande Alma) Gandhi.

Mesmo nesta etapa histórica tão assinalada pela crise de valores, crenças e paradigmas, é preciso manter a fé em Deus e lembrar que, ao passar em revista nossas reencarnações, não nos arrependeremos das boas ações que tivemos, mas do que deixamos de fazer de bom, mesmo estando ao nosso alcance.

[1] Versão original deste artigo publicada na Revista Cristã de Espiritismo, São Paulo, v. 13, n.º 112, p. 26-28, jan. 2013.

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Reencarnação e Escolha Profissional

“O ocaso da adolescência marca o auge de questionamento fundamental: a escolha da profissão a ser seguida, opção decisiva à adultidade, tomada no momento de maior indecisão e incerteza da juventude.” Mais aqui.

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Encontros e Desencontros na Senda Evolutiva

Encontros e Desencontros na Senda Evolutiva[1]

Hidemberg Alves da Frota


 

 

Na jornada evolutiva, não há despedidas propriamente ditas, mas série de desencontros e reencontros.

No circuito cósmico a que todos os espíritos (encarnados e desencarnados) estão conectados, dentro e fora do plano físico, não há possibilidade de se viver em eterno apartheid.

Ao longo do imorredouro ciclo evolutivo, estamos sempre esbarrando uns nos outros. Desse modo, à medida que evolve, condiciona-se o ser a amar, de modo fraterno e incondicional, todos aqueles que com ele coexistem no Todo.

Nem sempre essa perspectiva de horizontes amplos prevalece.

Às vezes, prefere-se a nostalgia do momento evolutivo passado, que ora existe apenas na memória, incrementada por tonalidades amenas ou sulfúricas em demasia, de enredos que não podem ser reproduzidos em condições idênticas, embora os espíritos que interpretaram tais personagens, inexoravelmente, contracenarão em novos episódios, em outros cenários e com outras características comportamentais, parecidas ou diferenciadas, se comparadas às daquela situação.

É comum o indivíduo se entristecer quando percebe o amigo de outros tempos (remotos ou recentes) em etapa evolutiva diferente da sua.

Afetos da alma ora se aproximam, ora se distanciam, de acordo com o ritmo evolutivo de cada um, a afinidade ou não entre pensamentos, sentimentos, emoções, valores, mentalidades, modos de ser e ideologias.

Espíritos que construíram entre si, no decorrer da senda evolutiva, pontes de afinidade ou laços de antipatia distanciam-se ou se aproximam e, por vezes, reciclam a forma como se relacionam, em função de interesses, valores, mentalidades, conduta e aptidões em comum ou em repulsão mútua, próprios do momento evolutivo que ambos vivenciam, na ocasião.

Devemos respeitar a caminhada evolutiva de cada um, próxima ou afastada da nossa – dualidade relativa, porquanto as distâncias se encurtam, por meio de pensamentos, sentimentos, emoções e energias compatíveis.


[1] Artigo escrito em 6 de novembro de 2006. Revisado em 10 de julho de 2010. Também disponível na plataforma PDF.

 

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Paradoxos e Dualismos

Dualismos e Paradoxos[1]

Hidemberg Alves da Frota



I

Materialistas e espiritualistas


Há materialistas que agem como espiritualistas e espiritualistas que agem como materialistas.

Sob o ângulo da evolução da humanidade, mais vale um materialista moderado, honesto e humilde que um espiritualista fanático, ardiloso e arrogante.

Aparentes materialistas, desvinculados do dever de castidade dogmática e abertos à análise descondicionada e despreconceituosa da realidade, muitas vezes acabam evidenciando maior razoabilidade e discernimento que muitos ditos espiritualistas (antimaterialistas), avessos, todavia, ao benefício da dúvida e propensos ao narcisismo dogmático e/ou institucional.

Obtempera Swami Vivekananda:

Para tornar-se religioso, comece sem nenhuma religião, faça sua própria escalada, perceba e contemple os fatos por si mesmo. Quando proceder assim, então, e só então, terá uma religião. Antes disso, você não é melhor que os ateus, talvez seja até pior, porque o ateu é sincero. Ele se levanta e declara: — Nada sei sobre isso — enquanto os outros também não sabem, mas vão adiante batendo no peito: — Somos pessoas muito religiosas. Que religião eles professam, ninguém sabe; engoliram alguma história da carochinha e os sacerdotes pediram que nela acreditassem.[2]

É possível que um espiritualista seja tentado a criticar um materialista e afirmar que este, ao renegar a ampliação dos horizontes conscienciais da humanidade (movimento convergente no campo científico, político, artístico e consciencial[3]), renuncia, em certa medida, ao progresso de si próprio[4].

É possível, também, que um espiritualista se sinta propenso a considerar que o materialista, adverso a um olhar espiritual sobre a vida, o universo e a epopeia humana, vive em meio ao vazio existencial de quem nada acha para além do que se encontra visível a olho nu na paisagem do mundo material.

Em que pese serem críticas ponderáveis, o espiritualista deve atinar com isto: se, a despeito das limitações do materialismo, o materialista se empenha em viver e tratar os demais com dignidade, em vencer as limitações do egoísmo e em pensar, sentir e agir conforme a norma de ouro da justiça (“Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”[5]), demonstra mais maturidade que o fiel que, sem maiores preocupações com o exercício do autoconhecimento, do autoenfrentamento, do discernimento e do senso crítico, entrega à autoridade eclesiástica a condução de sua existência[6].

Pondera Vivekananda:

E pode um homem jamais ter pisado numa igreja ou mesquita, jamais ter realizado um ritual; se ele sente Deus em seu interior e, dessa forma, ergue-se acima das vaidades mundanas, esse homem é um santo, um bem-aventurado, dê-lhe o nome que quiser.[7]


II

Purismo e sincretismo

Puristas criticam sincréticos, alegando que estes desnaturam e deturpam o real sentido de conceitos e valores religiosos. Sincréticos criticam puristas, sob o argumento de que estes, presos à ortodoxia doutrinária, cristalizariam sua visão de mundo e priorizam controvérsias teológicas em detrimento de questões éticas.

Cada um deve seguir (e ponderar sobre) o caminho que suas necessidades existenciais ditarem, tendo em mente que a rota escolhida não é melhor nem pior que as demais: é apenas a vereda mais propícia ao momento evolutivo em que se encontra.

Cada um tem direito de fazer suas ressalvas e elogios às cosmovisões, correntes de pensamento, ideologias e valores com os quais tem contato.

Contudo, devemos nos precaver contra a tendência humana de se buscar a prevalência de determinada linha de pensamento sobre as demais, baseada, muitas vezes, na percepção de que aquela possuiria o conhecimento mais próximo da verdade e estas, comparadas à primeira, estariam equivocadas e ultrapassadas.

Ao final, continua vigente o mesmo paradoxo: no campo consciencial (independente da corrente de pensamento escolhida), em que tanto se advoga a paz mundial, vicejam tantas e tão intensas contendas.

“Constatamos assim que nada trouxe mais bênçãos aos homens quanto a religião, nem nada trouxe tanto horror quanto a religião.”[8]

Reflexionam Dalton Campos Roque e Andréa Lúcia da Silva:

Não conheço nenhuma outra área em que os egos sejam tão exacerbados quanto a consciencial (espiritual, bioenergética, religiosa, projetiva, projeciológica, conscienciológica e afins).

É um estigma multimilenar e primitivo que vem arraigado a nossa holomemória ou memória consciencial em forma de orgulho, vaidade e arrogância pretensiosas.

Quando não se deseja convencer os outros que sua linha é a melhor, a única correta e onde existe a “salvação”, arroga-se a superioridade de trilhar uma linha “mais evoluída”, ainda argumentando que não deseja convencer ninguém. Na verdade posturas semelhantes de um mesmo ego religioso exacerbado.[9]

Na seara consciencial (a englobar as religiões e as filosofias espiritualistas humanas, assim como as autointituladas neociências estudiosas de temáticas extrafísicas), por vezes os indivíduos esposam comportamentos próprios de quem se prepara para um conflito armado sectário e dá a si a liberdade de acionar todos os artefatos de defesa do ego disponíveis em seu íntimo, o que patenteia a fragilidade e as incertezas íntimas com as quais a pessoa se defronta, quando instada a elaborar e a expor o seu ponto de vista acerca dos mistérios do universo e da dimensão espiritual ou extrafísica da natureza e do ser.


[1] Originalmente, texto finalizado em maio de 2006. Revisado em 30 de junho de 2010. Também disponível em formato PDF. Publicado na Revista Cristã de Espiritismo, São Paulo, v. 10, n. 90, p. 48-49, mar. 2011, sob o título “Universalismo ou ortodoxia: qual o caminho? Cada um deve seguir o que suas necessidades existenciais ditarem, ciente de que a rota escolhida não é a melhor nem pior [do] que as demais”.

[2] VIVEKANANDA, Swami. O que é religião. Rio de Janeiro: Lótus do Saber, 2004, p. 12.

[3] ELLAM, Jan Val. Muito além do horizonte: a ligação entre Kardec, Ramatis e Rochester. 2. ed. São Paulo: Zian, 2005, p. 294.

[4] Ibid., loc. cit.

[5] Brocardo colhido da seguinte fonte bibliográfica: KELSEN, Hans. A justiça e o direito natural. [2. ed.] Coimbra: Almedina, 2001, p. 54. (Coleção Studium)

[6] ELLAM, Jan Val. Op. cit., p. 268-269.

[7] VIVEKANANDA, Swami. Op. cit., p. 7-8.

[8] Ibid., loc. cit., p. 14.

[9] ROQUE, Dalton Campos; SILVA, Andréa Lúcia da. O karma e suas leis. Curitiba: ISC, 2004, p. 26. (Coleção Coração da Consciência, v. 1)

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Espiritualismo Universalista, Pluralismo e Respeito à Opinião Divergente

Espiritualismo Universalista, Pluralismo e Respeito à Opinião Divergente[1]

Hidemberg Alves da Frota



“Fiquei pensando: no coração universalista e fraterno, estão as pegadas amorosas de todos os mestres. Em sua atmosfera eclética, não há disputa religiosa nem apelos ignorantes. Nele, todos os passos luminosos são bem-vindos. Não há fanatismo em seu lar, nem a falsa noção de que um mestre é superior a outro.”

― BORGES, Wagner D’Eloy. Ensinamentos extrafísicos e projetivos: orientações espirituais de Sanat Khum Maat. São Paulo: Madras, 2005, p. 62.


O campo consciencial aloja conjunto heterogêneo de indivíduos adeptos de visões de mundo transcendentais (no sentido de ultrapassarem as fronteiras do materialismo).

Encontramos na seara consciencial cultores de religiões e filosofias espiritualistas, assim como pesquisadores de temáticas extrafísicas, parapsíquicas e correlatas — por exemplo, projeções da consciência (viagens astrais), mediunidade, bioenergias e enfoque multidimensional (intrafísico e extrafísico) da consciência (ou espírito)[2].

Ao espiritualista lato sensu (antimaterialista) três alternativas se apresentam: (1) aderir à doutrina consciencial preestabelecida; (2) fundar nova doutrina, (3) manter-se livre-pensador.

Não importa a rota escolhida. Importa alcançar o objetivo imediato (reforma íntima) e mediato (exercitar o amor universal em sua plenitude).

Salienta Amit Goswami:

O importante é que você tem alguns caminhos à sua escolha, independentemente da tradição a que pertence por nascimento. E não é necessário mudar de religião para seguir um caminho que não é o predominante da sua religião. Como disse Don Juan, o guru de Carlos Castañeda, escolha o caminho do seu coração, porque esse é o caminho que vai transformar você.[3]

O livre-pensador, quando se identifica com o espiritualismo universalista, evita se adstringir à determinada doutrina consciencial.

Prefere extrair de cada ramo do conhecimento aquilo que lhe parece aproveitável naquele momento evolutivo.

Esforça-se para tornar o mosaico de influências pensamento coeso e coerente, embora passível de aperfeiçoamentos.

Vislumbra na prática cotidiana o melhor teste para a consistência de suas convicções.

Lembra que os mentores espirituais da humanidade estão a serviço de todos, em trabalho de sinergia, procurando assistir da forma mais eficaz e menos agressiva à mentalidade de cada segmento da sociedade planetária (“Os ensinamentos do Alto são graduados de conformidade com o senso psicológico proporcional à suportação e compreensão dos seres humanos.”[4]).

Nominando-o homem crístico, assim Ramatis descreve o espiritualista universalista:

O homem crístico não se vincula com exclusividade a qualquer religião ou doutrina espiritualista; ele vibra com todos os homens nos seus movimentos de ascese espiritual, pois é o adepto incondicional de uma só doutrina ou religião ― o Amor Universal![5]

À primeira vista, espiritualismo universalista soa sincretismo anárquico.

Anárquico na pior acepção da palavra (“anarquismo caótico”[6]). Como se deixasse cada indivíduo à deriva.

Em verdade, a ideia não é deixar cada ser exposto a oceano de indefinições, entregue à própria sorte, mas reconhecer que o código de conduta basilar à evolução do espírito já foi decodificado pelas matrizes religiosas da humanidade.

Independente da religião professada (ou não), as normas cosmoéticas vigem para todos.

“Os prodigiosos princípios, o escopo e o plano da religião já foram descobertos há milênios”[7], observa Swami Vivekananda, o mesmo que alvitra: “Não é importante o que você lê nem os dogmas nos quais acredita, mas o que realiza.”[8]

Espiritualismo universalista constitui espécie de espiritualismo laico no sentido de se opor à fiscalização clerical ou patrulha doutrinária sobre a liberdade de consciência: o “controle de qualidade” se transfere de instituições e grupos de pessoas para o indivíduo, sob amparo do próprio discernimento, ponderação e capacidade de se reciclar.

O espiritualismo universalista é anárquico na melhor acepção da palavra (“anarquismo cósmico”[9], reflexo do autogoverno do indivíduo ancorado nas leis cósmicas[10]).

A verdade é individual e relativa: nenhum ser humano possui o monopólio sobre ela nem procuração para preservar sua castidade.

As iniciativas, deflagradas por meio de cruzadas doutrinárias, de se defender a pureza de dogmas contra investidas de críticos “hereges” e pensadores “ultrapassados” perdem sentido.

Ocultam o desejo de zelar pela supremacia da cosmovisão própria sobre as demais. Denota a falta de maturidade comum à parcela expressiva da humanidade.

Projeta-se em adversários externos a sombra das incertezas internas que se busca asfixiar, exteriorizando-se (ao exagero) veemente fidelidade aos princípios dogmáticos de que se faz cultor[11].

São inócuas as tentativas de se desconstruir a crença alheia, esvaziar a autoridade moral do líder espiritual de outrem: só alimentam a intolerância e a vã disputa pelo hors-concours da escalada evolutiva.

Filiação convicta à dada escola de pensamento apenas ocorre por meio do constante autodescobrimento e autoenfrentamento.

Demonstração de universalismo, maturidade consciencial e postura cosmoética reside em debater sem desrespeitar (por meio do escárnio, desprezo ou virulência, por exemplo) quem discordamos, ainda mais quando temos como interlocutor alguém que, de boa-fé, quer ajudar o próximo, trocar ideias sem pedantismo e, eventualmente, rever seu posicionamento.

Há quem considere que o deboche descontrai o ambiente. É necessário descontrair o ambiente magoando o interlocutor de modo gratuito? O debatedor franco, para se considerar como tal, precisa se municiar do sarcasmo e da arrogância professorais?

A tarefa do esclarecimento consciencial, dependendo das nuanças do caso concreto, pode justificar palavras enérgicas, se criteriosas e na medida do imprescindível.

Infelizmente, viceja a postura de se servir do caráter impreterível da sensibilização consciencial para se praticar a “política da terra arrasada”, quando a geração nova, ao suceder à antiga, opta por fulminar, por completo, a(s) cosmogonia(s) precedente(s) — reeditando prática iconoclasta de priscas eras — e os novos tarefeiros, cônscios da envergadura de seus encargos, invocam prerrogativas próprias de sumidades, para dilacerar a dignidade de quem deles diverge, como se o eventual conhecimento mais holístico da realidade conferisse licença para alvejar a integridade moral de outrem.

Por vezes, os seres humanos propendem a tão somente substituir “dogmas, preconceitos e convenções envelhecidas e cristalizadas no tempo por outras fórmulas novas, que também escravizam tanto quanto os velhos tabus abandonados!”[12].

O iconoclasta de hoje pode se tornar, amanhã, protetor fundamentalista do status quo, emulando, com novo formato, a prática fanática, sectária e neofóbica que tanto criticou[13].

Os tarefeiros do esclarecimento consciencial estão lidando com seres humanos, indivíduos em busca da sobrevivência e vida sã e saudável em ambiência fértil em incertezas, hostilidades e desesperança.

Comumente, palavras mal-explicadas, frases generalistas e raciocínios precariamente explicitados melindram e chocam sem, contudo, transmitir com eficácia a mensagem de que eram difusores.

Às vezes, não resta alternativa que atingir susceptibilidades como “efeito colateral” da exposição de determinado raciocínio ou juízo de valor.

Por outro lado, em diversas ocasiões, a diferença entre o indispensável e o excessivo se revela assaz tênue.

No entanto, em muitas oportunidades, alternativas tão eficazes quanto a cogitada — porém, menos ofensivas — existem (e também resta tempo hábil para avaliá-las); só não há disposição de considerá-las.

É preciso ter cuidado para não trucidar os valores, as opiniões e as doutrinas dissonantes.

Essa cautela representa medida profilática, a fim de minorar os riscos de que os adeptos das cosmovisões criticadas, impactados com a agressividade das críticas, rejeitem, de pronto, todo o conteúdo transmitido, chocados com agressões desnecessárias e injustificadas.

“A língua que acalenta cria incentivo e motivação, mas a língua que chicoteia e desdenha causa desânimo e discórdia.”[14]

Fanatismo não se combate com fanatismo nem soberba intelectual se combate com soberba intelectual.

Segundo a sabedoria popular, recorda Adilson Marques, “sempre que tentamos impor o bom caminho aos outros, dele nos afastamos”[15].

A postura de Jesus, Buda, Chico Xavier e Gandhi denota que a conduta cotidiana amorosa, ponderada, conciliatória, assertiva e solidária é emblema mais eloquente e admirável que o das táticas de guerra doutrinária, que tentam à força cooptar seguidores e neutralizar críticos.

O amor divino nunca abençoa ou autoriza sectarismo, perseguição e soberba[16].

Não deve o tarefeiro se evadir ao debate nem circunscrever a exposição ao público de juízos de valor incontroversos ou que gozem de relativo consenso social.

A expansão dos horizontes conscienciais da humanidade não se confunde com comodismo.

Porém, convém ter a prudência de não saturar a sociedade com polêmicas inócuas, rompantes de soberba intelectual e declarações cabotinas.

Impende ter em conta “a habilidade de saber discordar sem destruir e o respeito ao próximo acima de tudo”[17].

Pode-se prezar pela linha de pensamento acolhida, dissentir com veemência, dialogar de forma incisiva, categórica e franca, sem se ferir a dignidade do interlocutor.

Não se deve usar a honestidade de princípios e a sinceridade das próprias palavras como ensejo para humilhar de quem se diverge. Quanto “mais conhecimento, maior a responsabilidade”[18].

Não há privilégio em se desincumbir do esclarecimento consciencial (por intermédio ou não do espiritualismo universalista).

Essa espécie de atribuição constitui, em verdade, oportunidade e meio para os tarefeiros, espíritos carmicamente endividados (como a grande maioria da humanidade), construírem ponte para, no porvir, suas vivências intrafísicas e extrafísicas serem menos presas a dívidas cármicas.

Das críticas, o tarefeiro, na maioria dos casos, pode sorver centelha de utilidade.

Ao ser criticado, em vez de logo pensar em defender, ponto a ponto, suas convicções, calha verificar, primeiro, se não seria o caso de pedir sinceras e humildes desculpas (se perceber que, de fato, cometeu falhas), como quem cumpre dever cosmoético (e não uma concessão para afagar ego alheio), gesto de rara grandeza e coragem, incomum nas diversificadas hostes conscienciais (quer nas organizações religiosas, quer nos grupos espiritualistas e institutos de pesquisas parapsíquicas).

Por mais que se mudem os rótulos, permanecem vigorosos a soberba intelectual e a fixação de convencer os demais de que o próprio caminho é o melhor[19].

“Mudam-se a roupagem, a cultura e o cenário de uma época, mas o palco (planeta Terra) e os atores são os mesmos, quase sempre apresentando-se no corpo carnal com as mesmas necessidades evolutivas e tendências do passado espiritual.”[20]

Convém ao espiritualista universalista ter em mente que os caminhos escolhidos (por nós e pelos demais) são apenas trilhas opcionais (nunca as únicas válidas) para a consecução da reforma íntima.

Aquele de quem discordamos, por mais equivocado que nos possa parecer, pode estar percebendo algo relevante que nós, por motivos razoáveis ou não (neste caso, embevecidos pela prepotência ou falta de percepção mais acurada, por exemplo), nem temos ideia do que se trata ou capacidade de compreendê-lo no presente momento evolutivo.

Todos, ao longo da jornada evolutiva, mudam de ponto de vista, máxime em uma quadra marcada por transformações drásticas em espaço de tempo curto e oportunidades de evolução equivalentes ao somatório de inúmeras reencarnações pretéritas terrestres[21] (Era da Aceleração Histórica[22]).

Por vezes, o religioso se sente ventríloquo dos ditames de Deus, o cientista se arvora protetor do conhecimento, do discernimento e da lucidez e o artista se julga o zênite da criatividade humana.

Continua a humanidade atrás de papeis convincentes e respeitáveis para saciar sua sede por segurança psicológica e sufocar o paiol de dúvidas existenciais de povos que mal têm ideia aonde vão e de onde vêm.

O ser humano, ante o ligeiro pressentimento de que vai ser ferido, muitas vezes prefere agredir pela contundência ferina ou eloquente indiferença, quando não adota expedientes mais ofensivos.

Maturidade não se atesta pelo esforço em confirmar a primazia dos valores, normas, procedimentos, hábitos, ideologia e cosmovisão de que se faz guardião.

Maturidade se comprova pela capacidade de evitar contendas, diminuir intolerâncias, arrefecer animosidades e estabelecer pontos de convergência, em nome da coexistência fraterna e da paz perpétua.

Mais nos acrescenta extrairmos do pensamento divergente ensinamentos proveitosos ao autoaperfeiçoamento do que procurarmos motivos engenhosos para ridicularizá-lo.

Um dos maiores desafio da humanidade do século XXI radica em perceber que consubstancia família planetária e, enxergando-se como tal, colher de cada veio de pensamento humano seiva de utilidade ao interesse público e ao bem comum, ao desenvolvimento de condições gerais de vida digna[23], propícia ao desenvolvimento autossustentável e à execução eficaz dos projetos reencarnatórios.

Significa pensar mais naquilo que nos aproxima e menos no que nos distancia.

Daí a importância do indivíduo cultivar uma conduta diplomática destinada a unir os seus pares em torno de objetivos e atividades de interesse público, por meio de vínculos de cooperação com esteio em valores humanos, atrelando a engenharia política a causas e intenções em harmonia com a promoção da dignidade humana, imbuído da habilidade comunicativa de se fazer inteligível a plateias diversas, da sensibilidade para compreender psiques e mentalidades semelhantes e distantes da sua e cautela com as fragilidades alheias de quem tem a empatia de entender a condição de outrem antes de cogitar julgá-lo, com o cuidado de se prevenir contra atritos desnecessários, evitar instigar traços negativos de outrem e direcionar as energias conscienciais próprias e do entorno ao que, de fato, vem a acrescentar à evolução individual e coletiva.

Por mais que discordemos de outrem, devemos nos esforçar por perscrutar a luz (reluzente ou oculta) daquele de opinião antípoda e deste extrair filete de lucidez valioso à reforma moral individual e coletiva, tendo presente que possuímos mesma essência divina.

No afã de segregar e isolar, esquece-se que, nas palavras de Lao-Tsé, toda “a pluralidade radica na unidade”[24] (Tao Te Ching, Poema 39). Esquece-se, ainda, diria Marco Aurélio, que no Todo há sempre algo útil à parte[25].

Cientes de que somos parte do Todo, extraímos de outros segmentos do Todo conhecimentos valiosos ao nosso aperfeiçoamento e auferimos subsídios para a reciclagem íntima oriundos das transformações (novos acontecimentos) por que passa o Todo.

Sabendo que integramos o Todo, aguçamos a vista para os denominadores comuns conectando cada componente do Todo, por maiores que sejam as aparentes diferenças irreconciliáveis.

Indissociável do Todo, contemplamos plagas distantes deste território que a todos abarca e notamos nos rincões sementes de reflexão que, antes, desconhecíamos e acabam, muitas vezes, servindo-nos de aprendizado e crescimento.



[1] Artigo escrito em maio de 2006. Revisado em 26 de junho de 2010. Também disponível na plataforma PDF.

 

[2] BORGES, Wagner D’Eloy. Consciência, filha do eterno. Disponível em: <http://www.ippb.org.br&gt;. Acesso em: 23 fev. 2006.

[3] GOSWAMI, Amit. A janela visionária: um guia para a iluminação por um físico quântico. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 2005, p. 179.

[4] RAMATIS. A sobrevivência do espírito: obra mediúnica ditada pelo espírito Ramatis ao médium Hercílio Maes. 9. ed. Limeira: Editora do Conhecimento, 2003, p. 263-264.

[5] Id. A vida humana e o espírito imortal: obra mediúnica ditada pelo espírito Ramatis ao médium Hercílio Maes. 10 ed. São Paulo: Editora do Conhecimento, 2002, p. 325.

[6] ROHDEN, Huberto. Novos rumos para a educação. Martin Claret: 2005, p. 84. (Coleção a Obra-Prima de Cada Autor, v. 222)

[7] VIVEKANANDA, Swami. O que é religião. Rio de Janeiro: Lótus do Saber, 2004, p. 10.

[8] Ibid., p. 7.

[9] ROHDEN, Huberto. Op. cit., loc. cit.

[10] ROHDEN, Huberto. Novos rumos para a educação. Martin Claret: 2005, p. 84. (Coleção a Obra-Prima de Cada Autor, v. 222)

[11] FRANCO, Divaldo Pereira. Triunfo pessoal: ditado pelo espírito de Joanna de Ângelis. 5. ed. Salvador: LEAL, 2004, p. 176.

[12] RAMATIS. A vida humana e o espírito imortal: obra mediúnica ditada pelo espírito Ramatis ao médium Hercílio Maes. 10. ed. São Paulo: Editora do Conhecimento, 2002, p. 320.

[13] Id., p. 316.

[14] ROQUE, Dalton Campos; SILVA, Andréa Lúcia da. Espiritualmente falando: praticando o amor. Curitiba: ISC, 2005, p. 17. Disponível em: <http://www.consciencial.org&gt;. Acesso em: 15 fev. 2006.

[15] MARQUES, Adilson. Dharma-reiki: fluidoterapia; o aprimoramento espiritual e a caridade como caminhos para a cura. São Carlos: Sirius, 2004, p. 2.

[16] Ibid., loc. cit.

[17] ELLAM, Jan Val. Muito além do horizonte: a ligação entre Kardec, Ramatis e Rochester. 2. ed. São Paulo: Zian, 2005, p. 271.

[18] MARQUES, Adilson. O Reiki segundo o espiritismo. São Carlos, Cadernos de Animagogia, n. 3, out. 2005, p. 19.

[19] RAMATIS. A vida humana e o espírito imortal: obra mediúnica ditada pelo espírito Ramatis ao médium Hercílio Maes. 10. ed. São Paulo: Editora do Conhecimento, 2002, p. 316.

[20] ELLAM, Jan Val. Nos céus da Grécia: contexto filosófico; diálogos I; obra mediúnica ditada por diversos espíritos ao médium Jan Val Ellam. 2. ed. Limeira: Editora do Conhecimento, 2000, p. 28-29.

[21] RAZERA, Graça. Hiperatividade eficaz: uma escolha consciente; um estudo conscienciológico sobre o TDAH — Transtorno da Desordem da Atenção e Hiperatividade Infantil. Rio de Janeiro: IIPC, 2001, p. 24.

[22] VIEIRA, Waldo. Homo sapiens reurbanisatus. Foz do Iguaçu: CEAEC, 2003, p. 670.

[23] ELLAM, Jan Val. Nos céus da Grécia: contexto filosófico; diálogos I; obra mediúnica ditada por diversos espíritos ao médium Jan Val Ellam. 2. ed. Limeira: Editora do Conhecimento, 2000, p. 67.

[24] LAO-TSÉ. Tao te ching: o livro que revela Deus. São Paulo: Martin Claret, 2005, p. 103. (Coleção a Obra-Prima de Cada Autor, v. 136)

[25] MARCO AURÉLIO. Meditações. São Paulo: Martin Claret, 2005, p. 98. (Coleção a Obra-Prima de Cada Autor, v. 70)

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A Parábola de Matrix

A Parábola de Matrix[1]

Hidemberg Alves da Frota

 



O primeiro filme da trilogia Matrix demonstra a dificuldade de conhecer nossa missão de vida e a dificuldade maior ainda de executá-la com fé, discernimento e adaptabilidade.

Sublinha Waldo Vieira:

A programação existencial é adaptável ou mutável, suscetível de renovações ou ampliações, conforme a complexidade do seu desenvolvimento e a extensão do universo consciencial ou intrafísico que abarca as suas tarefas. Evolução significa mutabilidade e renovação.[2]

“Há uma grande diferença entre conhecer o caminho e percorrer o caminho”, ensina Morpheus a Neo.

Em outros termos, alinhava Vivekananda:

Vi mapas da Inglaterra durante toda minha vida antes de ir até lá. Foram de grande auxílio para que eu fizesse uma idéia do país. No entanto, quando cheguei à Inglaterra, que diferença entre os mapas e o país! Esta é exatamente a diferença entre a realização e as Escrituras.[3]

No primeiro filme da série Matrix, evidencia-se o embate entre “a verdade vos libertará”[4] (O Evangelho Segundo João 8:32) e “ignorância é benção”: a primeira induzindo o indivíduo à mutabilidade e ao constante autoquestionamento sobre a sua percepção da realidade; a segunda o convidando à neofobia[5], insuflando-o a se acomodar ao estado de aparência que o cerca e se tornar refém das comodidades materiais da existência transitória.

Afirma Lao-Tsé (Tao Te Ching, Poema 52):

Quem, em seu dever,

Permanece maleável e flexível,

Esse é forte.[6]

O que mais chama atenção na trilogia Matrix é a percepção do trio Neo, Morpheus e Trinity de que a programação existencial é compreendida por partes (em tiras, de forma fragmentária).

Enuncia a Codificação Kardequiana (A Gênese, Capítulo I, questão 50):

Os Espíritos não ensinam senão justamente o que é mister para guiá-lo no caminho da verdade, mas abstêm-se de revelar o que o homem pode descobrir por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de discutir, verificar e submeter tudo ao cadinho da razão, deixando mesmo, muitas vezes, que adquira experiência à sua custa. Fornecem-lhe o princípio, os materiais; cabe-lhe a ele aproveitá-los e pô-los em obra.[7]

O indivíduo, por vezes, sabe o necessário para executar sua missão naquele instante específico de sua jornada evolutiva.

Mais adiante, conforme as necessidades e as possibilidades de momento evolutivo posterior, obtém noção mais clara.

Ao longo da reencarnação, trocamos a fé abstrata no porvir pela percepção mais acurada do projeto existencial a concretizar, tornando-se, passo a passo, evidente que sua execução, além de exequível, revela-se gratificante a ponto de a considerarmos indispensável.

De qualquer forma, é preciso respeitar (e ponderar sobre) as inclinações e as orientações emanadas de fortes intuições e de outras fontes de norteio, sem descartá-las automaticamente, caso não coincidam com o pensamento individual ou coletivo.

Preceitua Sêneca: “Desse modo, devemos discernir tanto aquilo para que tendemos quanto o meio de conseguir o desejado […].”[8]

Seguir a visão de mundo da maioria e se robotizar, para não destoar da mentalidade dominante, esse caminho já conhecemos e já não nos satisfaz.

Prossegue Sêneca:

Ora, nada nos enreda em maiores males do que o fato de agirmos conforme a voz comum. Julgamos ser melhor o que é aprovado pelo consenso geral e, assim, vivemos à imitação dos inúmeros exemplos que se nos apresentam, e não conforme a razão.[9]

Completam Dalton Campos Roque e Andréa Lúcia da Silva:

Muitas vezes é preferível errar por nossa iniciativa do que acertar pela opinião dos outros. Aprendemos muito mais com nossos erros do que com nossos acertos.[10]

Embora o autodescobrimento seja viagem solitária que, às vezes, nos leva ao contrafluxo dos modismos e condicionamentos sociais, permite-nos maior paz de espírito e realização íntima do que a simples emulação do comportamento alheio.

Essa é a melhor mensagem subjacente da trilogia Matrix, nítida no primeiro filme, quando Neo, querendo sair do carro, é advertido por Trinity de que o caminho da rua ele já sabia aonde iria levá-lo.


[1] Versão primitiva do artigo (intitulada “Matrix e espiritualidade”) publicada na revista Comciência, São Paulo, v. 1, nº 2, p. 56-57. Revisado em 26 de junho de 2010. Também disponível na plataforma PDF.

 

[2] VIEIRA, Waldo. Manual da proéxis: programação existencial. Rio de Janeiro: IIPC, 2003, p. 20.

[3] VIVEKANANDA, Swami. O que é religião. Rio de Janeiro: Lótus do Saber, 2004, p. 12.

[4] A BÍBLIA SAGRADA. Niterói: FECOMEX, 1997, p. 89.

[5] “A neofobia é o medo às novidades ou coisas originais, justamente o oposto da neofilia.” Cf. VIEIRA, Waldo. Op. cit., p. 66.

[6] LAO-TSÉ. Tao te ching: o livro que revela Deus. São Paulo: Martin Claret, 2005, p. 129. (Coleção a Obra-Prima de Cada Autor, v. 136)

[7] KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. 36 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995, p. 38.

[8] SÊNECA, Lúcio Aneu. Da vida feliz. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 2. (Breves Encontros)

[9] Ibid., p. 3.

[10] ROQUE, Dalton Campos; SILVA, Andréa Lúcia da. O karma e suas leis. Curitiba: ISC, 2004, p. 219. (Coleção Coração da Consciência, v. 1)

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